Chico Alvim
Francisco Soares Alvim Neto
1938  -

Rapto da Lua

Incorporo a lua
a este escritório
já que não a vejo
de casa ou da rua
Untei-a de graxa
ampliei a janela:
ei-la sobre o arquivo
pálida, vazada -
astro corroído
dos vermes da sala
Tento subtraí-la
ao ar empestado
Talvez um abraço
à guisa de abrigo
Inútil: corrompe-se …
LUZ
Em cima da cômoda
Uma lata, dois jarros, alguns objetos
Entre eles três antigas estampas
Na mesa duas toalhas dobradas
Uma verde, outra azul
Um lençol também dobrado livros chaveiro
Sob o braço esquerdo
Um caderno de capa preta
Em frente uma cama
Cuja cabeceira abriu-se numa grande fenda
Na parede alguns quadros
Um relógio, um copo
A MORTE DE ALGUNS
Procuro na pasta
algum endereço
para orientar-me
em busca do termo
Mais certo talvez
olhar da janela
na tarde cruenta
tribos se devoram
Como sofreá-las
no impulso hediondo?
As leis não coíbem
a antropofagia
Ora, não me preocupo:
só termos pelejam
Os poetas se escondem
atrás de janelas
E não vejo sangue
na aragem anêmica
(termos se devoram
incruentamente)
Nesta guerra é certo
como em Uccello
só se valorizam
os gestos mais belos
Mesmo porque desertas
de homens as janelas
nelas só se vêem
poetas
CARNAVAL
 
Sol
Esta água é um deserto
O mundo uma fantasia
O mar, de olhos abertos
Engolindo-se azul
Qual o real da poesia?
HOMMAGE À OSWALD
Bandas marciais
executam a sinfonia da pátria
ao pé do lábaro estridente
Os ministérios verrumam
Na boutonnière do azul
cintila o espírito público
AQUI
Meu corpo é o divã
à esquerda deste espelho
quantas roupas meu deus
espalhadas no soalho
e a vontade de poder
que por toda parte se vê
aqui não tem mar nem céu
e ficamos claustrófobos –
panos de chão irrisórios
do cosmo
TRÓPICO
Sereias louras
em revoada entorpecem
o Canal do Panamá
que belo rego de bunda
suores de uma só banda
quantas carnes carentes
de carícias frementes
e os papagaios
VELHO
Todo velho fica assim
Meio
Ah nem sei como fica
Ele não fica
Um velho não fica